Mano Azagaia

''Mano Azagaia, ah! Azagaia para os amigos; herói para o povo, filho da mãe para os políticos". É assim como Edson da Luz, um dos maiores rappers de intervenção social da lusofonia dirige-se à público em minha geração, faixa número 7 do seu álbum Cubaliwa. Para quem não sabe, uma azagaia é uma arma de arremesso, geralmente utilizada na caça/pesca, composta por uma haste de madeira curta e por uma ponta de chifre de animal ou de ferro. O instrumento parece ser ideal para descrever um jovem que surpreendentemente, em tenra idade, decide iniciar a sua carreira musical de maneira polémica, desferindo golpes contra o sistema político moçambicano com o lançamento do seu primeiro álbum Babalaze, em 2007.
Formado em geologia, candidato do MDM a deputado da Assembleia da República de Moçambique, com milhares de fãs e um enorme reconhecimento popular na manga, Azagaia tinha, sob o ponto de vista da sociedade moçambicana, mais do que meio caminho andado para ''viver bem'', em paz e constante prosperidade ao lado da sua família. No entanto, tal como os grandes Homens, Azagaia prosseguiu fiel aos seus ideiais, numa sociedade onde muitas vezes sucesso e as grandes oportunidades andam de mãos dadas com o ''lambebotismo'' e com a corrupção. Ciente dos perigos e das ameaças que este caminho traria consigo, o rapper não se acovardou, muito menos vendeu a sua alma em troca de alguns trocados, tal como assistimos na média social, figuras e organismos públicos convertidas em marionetes para influenciar o povo a acreditar que X é Y, e que Y é X. Que confusão! Deve ser por coisas como esta que Azagaia foi movido a compor As mentiras da Verdade.
Gerações levantam-se, gerações passam, e em cada uma delas a vida concebe uma minoria que ao longo do tempo revelam-se grandes homens. Cada um com o seu estilo e campo de actuação, entretanto, com um impacto estrondoso no meio no qual estão inseridos. Para a minha geração e para o meu país, Moçambique, o universo concebeu e gerou Azagaia. À semelhança dos grandes revolucionários, Azagaia percebia a importância da conscientização das massas sobre as falhas e os acertos, pois só assim é que seremos capazes de valorizar o que é bom e melhorar o que nos mata enquanto povo moçambicano. É como disse Jesus Cristo "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará''. É por isso que a cada verso das suas riquíssimas composições confrontamo-nos com preciosos factos verídicos, capazes de libertar a mente de um povo que se encontra em cativeiro.
''…Herói para o povo…''! Há quem refute esta verdade. Mas afinal o que é um herói? De acordo com o dicionário Priberam, um herói é uma 'pessoa de grande coragem ou autora de grandes feitos.' Em vida, Azagaia reuniu coragem, persistência, bravura e talento para se fazer às trincheiras, ainda que sozinho, com armas brancas: o papel e a caneta. Das Trincheiras, o rapper, muitas vezes apropriadamente vestido de militar, foi persistente nos seus ataques e continuou, tendo em vista uma revolução, a 'lançar um jato de palavras' contra o sistema politico, tal como podemos ouvir em faixas tal como musica de intervenção rápida. Há quem o compare ao nosso tão respeitado e querido herói nacional, Samora Moisés Machel. De facto, foram Homens com muitos traços em comum. Defensores da mesma causa, mas nascidos em épocas mais ou menos diferentes. Um lutou contra o colono estrangeiro, outro contra o nacional. Um pegou em armas, e o outro num papel e numa caneta. Ambos ajuntaram milhares de moçambicanos para anunciar uma nova era; Samora, no estádio da Machava, proclamou a independência e gritou ''a luta continua''. Azagaia, no seu velório, reuniu milhares de cidadãos moçambicanos na Praça da Independência e fez-lhes gritar em uníssono 'ladrões, fora'. Enfim, os dois lutaram para varrer o nosso quintal. E, dentro das suas circunstâncias, ambos deram o seu melhor por uma causa nobre: a libertação de um Moçambique oprimido.
"…Filho da mãe para os políticos''. Na maior parte das suas composições, Azagaia, destemidamente, denunciou o neocolonialismo, a corrupção, esquemas de enriquecimento ilícito, a monopolização de recursos nacionais por uma classe elitista, o entretenimento que é promovido para distrair a seiva da nação: os nossos jovens. Não só denunciou, como clamou por uma governação sustentável, capaz de devolver a dignidade aos cidadãos moçambicanos que sobrevivem diariamente com menos de um dólar. Basta escutar faixas tais como A Marcha, Povo no Poder, Cães de Raça, entre outras, para perceber a mensagem heroica do rapper. Numa época em que assistimos alguns numa corrida veloz com o intuito de limpar o seu nome e deixar um legado, eis que surge Azagaia gritando nos seus shows 'Quem vendeu a minha pátria? Quem vendeu a minha pátria?'' levando o povo a refletir, o que é um acto capaz de boicotar o projecto daqueles que pretendem ser pintados como heróis na história de Moçambique. Mesmo depois de morto, Azagaia continua a ser um ''filho da mãe para os políticos'' na medida em que a sua mensagem espalha-se pelas artérias do país e do mundo, convertendo, ajuntando, e nutrindo as mentes dos novos soldados, aqueles que vão dar continuidade à revolução.
Irmãos, o nosso mano Azagaia
deixou-nos uma herança: os seus ideais e as suas obras. E tal como todos os
herdeiros, em conjunto, temos de tomar uma decisão sobre o nosso património. O
que faremos? Esbanjar e esgotar, ou preservar e multiplicar? Se optarmos por esta
última, tenhamos sempre em mente as palavras do nosso herói em Vendem o País
"fiquem firmes, o Senhor não desampara os seus herdeiros. Desde sempre ele
testou os seus filhos verdadeiros''
